domingo, 29 de março de 2009

Cuba

Ei, rapaz,
De sandália de trançada de couro,
Cheia de ginga e pintada, quase bordada à mão.

Ei, meu tal rapaz,
E essa dança marota, seguindo um jongo girado, que a mim já não olha mais?
Sem rabo de olho, samba com outra dama, que dança no seu rimar.

Ei, rapaz,
agora que não tem minha moça,
cheia de saia e sonho, será que vais para Cuba?

Eu talvez fique,
talvez voe,
ou, empreste a saia pra outro rapaz olhar.
E, quando você voltar,
quem sabe gingamos juntos,
bordamos uma boa prosa
e pintamos uma nova dança.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sonho

Sonhei com a mania de ser feliz.
Morava numa casa na árvore.
Bordava folhas.
E, de galho em galho, me afastava do asfalto.
Pra longe, longe..

Sonhei, feliz, com a mania de ser.
Andava por cima das águas,
Entre a pele e o rio,
Suando quente, sentindo frio.

Mania de ser. Feliz, sonhei.
Não morava,
Não bordava,
Não andava nas águas.
Acordei, feliz com a mania de sonhar em ser.
E era.
Virei pro lado e te abracei.

Mais

Sou outra e mais.
Amo sim, meu poeta, amo todas as descobertas.
Amo andar de bicicleta
Beijo a água do mar,

Sou a mesma e menos.
Ás vezes me pego amando-te debaixo dos lençóis.
Outras, me vejo longe, com um moleque a puxar minha saia e dizer, mãe.

Sou outra e a mesma.
Tenho todos aqueles defeitos e algumas novas ansiedades.
Ainda sou feita de erros e cheiros, os mesmos!

sábado, 7 de março de 2009

A olho nu






















Não veremos o sol em seu eclipse.
E eu não te verei.
A olho nu mal sentiremos o que somos, e não estaremos à flor da pele.

Não saberei dos seus crimes, esquecidas as provas sob o tapete.
A olho nu, nada.
Nada de paixões proibidas,
Nem passado controverso.
Sem pêlos arrepiados, ou arrependimentos.

O que seríamos sem nossas lentes?
Ampliados os sentimentos,
Exageradas as reações,
Desfocados os encontros.
E a falsa compreensão da realidade?
Sem uma grande angular?

A olho nu não terei o zoom para me aproximar,
Nem o filtro para me proteger.
Pelada de mim.
Serei o que você imagina que sou.

Vi desse Jeito

Vi desse jeito.
O pai chegou na frente, morto.
O filho atrás, meio vivo, todo torto.
Inconsolável. Era apenas um homem esguio, de cabeça baixa.
O Corpo trêmulo, encaixava nos nossos braços.
Abraçado tão forte, ele não percebia, mas se entregava.
Mal parecia o nosso João, mas era.
Um João sem pai.
Um João sem chão.
Um João, sem João.

Vi desse jeito o velório.
Uma meia morte do filho.
Sim, existe morte partida!
Perda que não volta, de um amor sem poréns, sem perguntas.
De um amor encantado. Como o de João por João.

João tem orgulho do nome do avô, que foi do pai e agora é seu.
João Augusto de Andrade.
Que era um quase-corpo, tentando voltar no tempo. E impedir.
Queria dizer que sim meu amigo, mas não.
Não podemos voar tão alto.

Vi desse jeito você.
E lembrei de mim. Quando perdi o meu, que de João só não tinha o nome.
Mas era amor. O nosso primeiro amor.
Sei das suas lágrimas, das lembranças, dos detalhes, do jeito.
Sejamos então como eles, meu querido João.
Sejamos mais!
Voemos tão alto até cairmos.
Morrermos.
Sabendo ao menos que fomos quem deveríamos ser.

...........................................................................
Para João Augusto de Andrade

Hugo Ronca Cavalcanti

Hugo Ronca Cavalcanti.
Morreu de bala perdida.
Caiu de costas pro chão.
Virado, com o rosto pra cima.
Os olhos, ainda abertos, quase lacrimejavam.
Morreu de bala perdida.
Mais um grito da realidade.
Retrato do estapafúrdio.

Caos que é mais uma sombra.
Não acendam as luzes!
Ignorem toda a saudade,
de Hugo Ronca Cavalcanti.
Que morreu da nossa bala,
Pouco perdida,
Quase óbvia.

Enterrem, na mesma cova,
todos os Hugos.
Disparem mais balas,
que nós não acenderemos as luzes.
E fingiremos que elas são perdidas.

Meu primeiro amor

Faz dois anos que não te vejo, meu amor e muitos ainda se passarão.
Toda lágrima que cai é mais uma que vem, e continuo sem te ver.
Faz dois anos, meu primeiro amor.

Mal lembro dos meus olhos azuis, quando nasceu o meu olhar por você.
Que brincadeira foi a primeira?
Qual dos beijos o melhor?
Sorriso sem limites, que de palavras infinitas fez livros de poemas e me ensinou a ler, frases inteiras de amor.

Dois anos e mais quantos? Quantos se passarão sem abraço, sem conselho, sem nem um caso de amor como o nosso...o primeiro?

Ditadura da morte. Eterna companhia do nosso amor.

Pai, o meu primeiro.

Urgente

Meu despertador toca três vezes: urgente, urgente, urgente!
Me viro entre pão, café, banho e pressa.
Não esqueço o salto, mesmo que derreta no asfalto
e me deixe longe de alcançar os sonhos,
estes sim, urgentemente postergados.
Entre tragédias, fofocas e barracos, passeio de barca no jornal.
Visito cada página:
Favela,
Asfalto,
Pobre,
Puta,
E rato.
Todos em frases, lado a lado.
Suborno, palavra destaque.
Fome, pé de página.
Faço barco de papel do meu jornal.
Afasto a favela e corro pro asfalto.
Meu dia não cansa de virar noite,
e logo a noite se faz dia,
em caráter de urgência.

Esther

Ela era ela, como sempre foi.
Agora, dia após dia, tem olhos vazados, vazios, ocos.
Era ela, Esther, aquela mulher, de vida, sem-vida.
Luta, ainda, ela, acostumada à labuta.
Pensa, ainda, na unha por fazer, na casa por cuidar, nas filhas...que não se falam,
e brigam,
e xingam,
e esquecem da morte,
e seguem a vida.

Ela passará.
Cada olho, do seu olhar verde, vejo, sumirá.
Vou admirar o mar, e lembrar de Esther.
A minha, matriarca, rude, forte, quente e fraca.
Linda velha, mais velha, mais velha, mais velha,
e linda, no reflexo dos meus olhos verdes que saíram dela.

Não solte minha mão!
Não!
Sou a menina. Sua menina de tranças.
Era ela ainda, para mim, apesar de não ser mais pra ela.

Para minha avó, Esther.

Romance com o vento

Coloquei um vestido vermelho
E saí por aí
O vento brincava com a saia
Parecia querer ver que cor, na verdade, eu tinha.
Que cheiro por baixo dos panos?
Eu Tinha vontade de agarrar o ar, gelado
e fazê-lo quente.
Um ferver entre-pernas.
Relutante, o vento tocava meu seio,
mais rosa que vermelho,
e o fazia rígido, tenso, arrepiado!
Fechei os olhos para que os cílios se abraçassem, se acolhessem.
Engolí a seco.
Lembrei-me dos lábios que, mesmo rachados, queriam beijar.
Esquecera da língua, até sentí-la, curando as rachaduras.
Molhei o ar e tornei-o parte de mim, quente, irregular.
Tive um romance com o vento.